Crise e crise

Por Cristovam Buarque

O presidente Lula decretou o fim da crise. Baseou-se no indicador da retomada do crescimento econômico no trimestre anterior. Isso sinalizou de fato que a recessão foi substituída pelo crescimento, embora pequeno. Ainda é cedo para garantir a continuidade desse crescimento nos próximos meses e anos, de qualquer forma é um indicador positivo da solidez da economia brasileira. Representa uma virada na situação anterior da queda na produção no comparativo entre trimestres. Até porque o mesmo aconteceu em alguns outros países, o que permite considerar a hipótese de que esse crescimento pode ser continuado. Nesse sentido, o presidente tem razão.

Mas, o otimismo possível mostra uma miopia na visão do tamanho da crise, porque ela não é apenas econômica: é também social e ecológica. E, nesses dois campos, não saímos ainda da crise. Ao contrário: a retomada da economia foi realizada graças ao aumento da produção da mesma indústria depredadora e concentradora da renda que caracteriza o nosso progresso, desde o último século.

O Brasil pode ter saído de uma crise, mas não mudou, não iniciou uma reorientação de seu rumo para sair da Crise maior que vivemos. A retomada do crescimento, corretamente festejada do ponto de vista da economia, no imediato, é a continuação de uma marcha em direção ao aquecimento global e todas as suas consequências: desarticulação da agricultura, elevação do nível do mar e inundação das áreas litorâneas, extinção de espécimes animais e vegetais. Em direção também à degradação urbana e à violência social.

Mesmo com crescimento econômico e tendo saído da crise específica da recessão econômica, o Brasil não saiu da grave crise ecológica. O crescimento econômico retomado continua baseado na produção da velha indústria mecânica e na exportação de bens primários, enquanto o futuro está na economia do conhecimento.

Sem a reorientação para a economia do conhecimento, com produtos decorrentes do avanço científico e tecnológico, vamos fazer a aceleração dentro do mesmo modelo. Continuaremos produzindo carros e importando os robôs, fabricando remédios produzidos com fórmulas importadas, com médicos competentes usando equipamentos vindos do exterior. Será o “subdesenvolvimento avançado”, nas palavras do deputado Brizola Neto. Ficaremos para trás em relação ao mundo que já fez seu desenvolvimento científico e tecnológico.

A retomada do crescimento também não acena com um novo rumo no enfrentamento do problema social. O crescimento é muito melhor do que a recessão. Mas já tivemos períodos históricos em que o crescimento atingia níveis milagrosos acima de 10% ao ano, em sucessivos anos, e os problemas sociais se agravavam na desigualdade, na educação deficiente, na violência urbana e rural, no abandono da infância, na prostituição infantil, no sistema de saúde incapaz de atender ao conjunto da população. A volta do crescimento na produção econômica não acena para a redução no analfabetismo de adultos, nem para o melhor atendimento da saúde, nem para a redução da violência.

O crescimento se baseia na mesma estrutura concentradora de renda que exige do governo um programa como o Bolsa Família para fazer minúsculas transferências de renda, com recursos públicos captados pela elevada carga fiscal, sem uma reorientação do modelo sócio-econômico para uma estrutura distributiva dentro da própria economia e não fora dela, como hoje, por meio do serviço estatal.

Tivemos crescimento, na mesma direção, acenando para a saída da crise, mas não da Crise.

Artigo do senador Cristovam Buarque publicado no Jornal do Commercio de sexta-feira, 18 de setembro.

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